TEC
Teatro Experimental de Cascais

Maria do Céu Guerra

Os admiradores (entre os quais me incluo) da carreira e do talento de Maria do Céu Guerra, celebraram com imenso agrado, a distinção que a actriz recebeu ao ser premiada com o Globo de Ouro de Mérito e Excelência, atribuído pela revista Caras/SIC.
Já anteriormente Maria do Céu Guerra foi reconhecida como melhor Actriz da Europa, pelo Festival Internacional de Teatro - Actor of Europe.
Todas estas homenagens enchem-me de uma enorme satisfação pela amizade que lhe tenho desde 1965, ano em que fundámos, na então pacata vila de Cascais, o Teatro Experimental.
Na nossa companhia, Maria do Céu Guerra distinguiu-se de imediato como uma jovem com enormes potencialidades artísticas. Em todos os géneros de teatro, com o seu colossal talento, deu-nos interpretações notáveis, como em "A Vida de Esopo" de António José da Silva (O Judeu), "A Casa de Bernarda Alba" e "Bodas de Sangue" de Federico García Lorca, assim como também em "A Maluquinha de Arroios" de André Brun, "A Maça" de Jack Gelber e "Fedra" de Jean Racine com a enorme actriz Eunice Muñoz.
Sensibilizou-me o agradecimento e a reflexão que Maria do Céu Guerra fez ao receber o Globo de Ouro, relembrando o muito que todos nós devemos à liberdade que alcançámos em Abril de 74. Nunca é demais enaltecer - como Maria do Céu Guerra o fez -, a figura da democracia que é Francisco Pinto Balsemão.
A génese deste grande senhor da democracia está patente na liberdade de opinião exercida na SIC Notícias.
Maria do Céu Guerra sabe tão bem como eu, a horrível censura de que fomos vítimas, logo no início da fundação da nossa companhia.
Obrigado Maria do Céu Guerra. Um abraço imenso deste teu grande amigo e admirador,
João Vasco


PS: Depois de escrever esta mensagem dedicada à Maria do Céu Guerra tive conhecimento dos resultados provisórios dos concursos sustentados bienais 2020/2021 atribuídos às companhias de teatro por parte do júri (sempre os júris!) da Direcção-Geral das Artes.
Entre os grupos elegíveis, mas não contemplados financeiramente, está A Barraca, fundada em 1975 pelo dramaturgo Hélder Costa e por Maria do Céu Guerra.
É possível cercear a criatividade destas grandes figuras da nossa cultura, cortando o merecido apoio às suas criações?
Inacreditável.


Saudemos os 150 anos de existência do Teatro Gil Vicente em Cascais

Foi no dia 19 de Setembro de 1869 que o homem de negócios Manuel Rodrigues de Lima, concretizou o seu sonho ao presentear Cascais com uma moderna sala de teatro, à qual deu o nome do mais icónico dramaturgo português: Gil Vicente.
É notável a acção cultural desenvolvida ao longo destes anos nesta maravilhosa sala de teatro, amada pelos cascalenses e não só.
Este teatro recebeu ao longo da sua existência grandes personalidades da cultura portuguesa e até estrangeira. Destacamos o facto do Teatro Gil Vicente ser desde sempre, a verdadeira catedral do "teatro amador", cujas gerações de intérpretes têm mantido a chama do verdadeiro teatro amador. Tem sido uma tarefa apaixonante (e nem sempre fácil) pelo teatro em geral.
Grandes nomes da cena portuguesa, dirigiram muitas das peças ali levadas à cena: destacamos a jóia da coroa, o grande êxito que ao longo dos anos tem sido a célebre opereta "Senhora dos Navegantes", representada no Teatro Gil Vicente por muitas gerações de intérpretes.



O Teatro Experimental de Cascais
no Teatro Gil Vicente

É neste teatro que em 1965 estreámos a peça de António José da Silva (O Judeu), "Esopaida ou Vida de Esopo". O nascimento de um novo movimento de teatro português em Cascais, só foi possível pelo entusiasmo e apoio de duas grandes personalidades da vida cascalense, Joaquim Miguel Serra e Moura, então presidente da Junta de Turismo da Costa do Sol, e o jornalista João Martinho de Freitas, então director do recente periódico Jornal da Costa do Sol. "Esopaida ou Vida de Esopo" teve encenação de Carlos Avilez, música ao vivo de Carlos Paredes e cenário e figurinos do jovem pintor Luís Pinto Coelho.
Do elenco faziam parte os jovens Zita Duarte, Santos Manuel, Maria do Céu Guerra, João Vasco, Carmen Gonzalez, Manuel Cavaco e António Rama, entre outros.
Assim, no dia 13 de Novembro de 1965 começou a história desta companhia, que ainda hoje se mantém activa no panorama da cultura nacional.
De 1965 até 1974 (na altura em que a companhia estava numa digressão em Angola e Moçambique, dá-se o 25 Abril), o movimento desenvolvido pelo Teatro Experimental de Cascais, levou ao Teatro Gil Vicente uma nova corrente de público, que se deslocava de toda a parte do país, para tomar contacto com novas propostas e linguagens teatrais, onde se destacavam actores, dramaturgos, artistas plásticos e compositores.
Neste período, representaram neste teatro Amélia Rey Colaço, Augusto Figueiredo, Mirita Casimiro, Eunice Muñoz, Glicínia Quartin, Lourdes Norberto, José de Castro, Lia Gama, Canto e Castro, Fernanda Coimbra e muitos outros intérpretes. É aqui que se estreia - na peça "Mar" de Miguel Torga -, um jovem de treze anos, chamado António Feio. Também no Gil Vicente desenvolveram o seu talento, os artistas plásticos Francisco Relógio, Almada Negreiros, Júlio Resende e Lagoa Henriques, assim como o grande vulto da nossa cultura, o músico Carlos Paredes.
Por tudo isto, saudamos nesta data os honrados Bombeiros de Cascais, que lutaram sempre para que o Teatro Gil Vicente nunca deixasse de ser o seu teatro.
À direcção dos Bombeiros Voluntários de Cascais, na pessoa do Dr. Rama da Silva, assim como à direcção que tem à sua responsabilidade as actividades culturais do Teatro Gil Vicente, cujas novas propostas se têm realizado com grande êxito, de forma a honrar o passado e o presente do Teatro Gil Vicente, deixamos as nossas
Saudações


Carlos Avilez
João Vasco
Teatro Experimental de Cascais


Carlos Carranca
in memoriam

O desaparecimento de Carlos Carranca há dias, constituiu um duro golpe emocional para todos os amigos desta figura extraordinária. Havia ainda muito a esperar deste intelectual, que se preocupava com o seu país e os destinos da cultura em Portugal.
Era um homem de fortes convicções, dotado de grande humanismo, bem patente na sua obra poética e não só.
Carlos Carranca exerceu com paixão o seu papel de pedagogo e homem de cultura universal. A sua paixão pela obra de Miguel Torga, de quem foi amigo, motivou-o de forma a dar a conhecer aos jovens alunos, a grande figura e a mensagem deste poeta, que tanto honra a nossa literatura. Toda a sua obra dedicada a Torga, merece e deve ser divulgada pelo conhecimento e paixão que lhe dedicava, como também a outros vultos da cultura universal, com destaque para Miguel de Unamuno.
Foi colaborador em diversos espectáculos do TEC Teatro Experimental de Cascais, tais como Terra Firme, O Paraíso e Torga.
Leccionou durante mais de duas décadas na Escola Profissional de Teatro de Cascais, dando o seu cunho de professor universitário de grande mérito. Influenciou muitos jovens, dando-lhes a conhecer a importância da cultura, do civismo e da cidadania. Foi o primeiro grande divulgador da obra que é hoje a Escola Profissional de Teatro de Cascais. Certamente que este estabelecimento de ensino irá homenagear em breve este homem de bem, amigo dos seus amigos, escritor e poeta, cuja obra deve ser estudada e divulgada por todos os seus amigos e admiradores.
O meu abraço de grande amizade para Carlos Carranca.

João Vasco 
Setembro, 2019


Ruben de Carvalho
Tive o privilégio de o conhecer aquando a Lisboa '94 Capital Europeia da Cultura. Tinha-lhe enviado uma sugestão no sentido de voltarmos a representar BREVE SUMÁRIO DA HISTÓRIA DE DEUS de Gil Vicente. Espectáculo que esteve em cena em Cascais, com assinalável êxito, mas com imensas investidas pela comissão de censura. Não era bem o texto de Gil Vicente que os preocupava, mas sim, o enigmático cenário do grande escultor José Rodrigues, que tinha transformado o palco com grades aludindo a uma prisão. Também o elenco do espectáculo levantava algumas dúvidas, como por exemplo a figura de Cristo desempenhada por José Jorge Letria, acompanhado de outros intérpretes, como Pedro Barroso e António Macedo, que tinham obtido um assinalável êxito os baladeiros saídos do célebre Zip-Zip. Curiosamente, a edição musical da peça, quando foi entregue no Teatro Gil Vicente em Cascais, foi apreendida pelos elementos da PIDE.
Depois de analisar o projecto, Ruben de Carvalho chamou-me para me informar o seu interesse em incluír o espectáculo na programação Lisboa '94. Foi um diálogo que não esqueço. Era uma personalidade cativante, pessoal e culturalmente.
Assim, convidámos os míticos Delfins, que com um enorme talento musicaram o texto Vicentino. A figura de Cristo foi desempenhada com enorme sensibilidade e beleza pelo Miguel Ângelo. A sua personalidade servida por um enorme carisma junto da juventude, tornaram o espectáculo num enorme êxito. Foi um grande momento dos Delfins, um dos grandes sucessos dos temas musicais, foi sem dúvida o "Soltem os Prisioneiros". Sem ser oportunista o tema foi da maior importância para a causa de Timor.
Ruben de Carvalho ao aceitar este projecto de Gil Vicente, mostrou a sua visão cultural transformando num grande êxito que foi a Lisboa '94. Ruben de Carvalho faz parte das personalidades que tiveram influência na vida do Teatro Experimental de Cascais.
Teria sido certamente um "inesquecível" Ministro da Cultura.
João Vasco
Junho, 2019


Saudemos Chico Buarque pelo Prémio Camões

Ficámos sensibilizados pela atribuição merecida do "Prémio Camões" a Chico Buarque, poeta e dramaturgo brasileiro dos mais celebrados em todo o mundo. Ao saudá-lo, queremos, mais uma vez, agradecer-lhe a colaboração no sentido de autorizar a nossa companhia para que tivéssemos levado à cena, em 2013, a peça "Os Saltimbancos", de sua autoria, no Teatro Municipal Mirita Casimiro.
A sua extraordinária obra "Os Saltimbancos" constituiu um merecido êxito do nosso público. Não queremos esquecer e, ao mesmo tempo, saudar o nosso amigo, escritor e jornalista brasileiro Jefferson Del Rios que, como amigo de Chico Buarque, deu-lhe a informação sobre a actividade do Teatro Experimental de Cascais. Chico Buarque deu-nos todas as facilidades para que representássemos a sua obra.
Desde Cascais, o nosso abraço e a nossa homenagem a Chico Buarque da Holanda. 
João Vasco
Maio, 2019 

fotografias do espectáculo OS SALTIMBANCOS 
da autoria de Alfredo Matos 


MARIA ALBERTA MENÉRES

Figura importante da cultura portuguesa, deixou-nos uma obra extraordinária na literatura infanto-juvenil. 
Era uma senhora encantadora. O seu cunho pessoal, através da sua obra, deixou-nos uma marca indelével na sua passagem pela RTP, onde o sector que dirigiu, atingiu o nível de grande qualidade, deixando o seu contributo para que a juventude tivesse acesso televisivo e não só, na formação dos jovens.
Tive o privilégio de conviver com a Maria Alberta Menéres quando, em 1980, decidimos levar à cena "O que é que aconteceu na Terra dos Procópios?" de sua autoria. 
Foi uma feliz encenação de Carlos Avilez, num lindíssimo cenário todo branco, da autoria de Maria Helena Reis. O elenco era constituído por Álvaro Faria, Carlos Freixo, Fernando Côrte-Real, Luis Rizo, Rita Pavão e Vicente Batalha. No elenco estava a excepcional actriz Cecília Guimarães, que interpretava um "Palhaço". Os intérpretes davam vida e entusiasmo ao texto da autora, servido pelo talento musical de Luís Pedro Fonseca e a coreografia de Águeda Sena.
O espectáculo integrado no projecto "O Aluno, o Professor, o Teatro e a Escola", foi estreado em Lisboa, no Teatro Aberto. O êxito foi tão grande (que se deveu em grande parte à comunicação entre os intérpretes e o público), que nos levou a repô-lo mais tarde, no Casino Estoril.
Em colaboração com a Câmara Municipal de Cascais, jovens de todas as escolas do ensino preparatório do concelho, deslocaram-se em autocarros, ao Auditório do Casino Estoril, durante alguns meses.
Foi proposto, em colaboração com os professores, que os jovens trabalhassem em desenho, a história da peça de Maria Alberta Menéres. Daí resultou, no Espaço Memória, uma exposição com esses trabalhos, os quais constituíram um projecto importante na vida do Teatro Experimental de Cascais.
Maria Alberta Menéres afirmou na altura, ter sido este, um momento importante na sua carreira literária.

João Vasco
Abril, 2019